sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sigur Rós

Foi considerado como um dos gigantes da música


(Sigur Rós é uma banda islandesa de post-rock, com elementos melódicos, clássicos e minimalistas. O nome, em islandês, significa "rosa da vitória", e pronuncia-se "si ur rous", ou ['sɪɣʏr rous] no Alfabeto Fonético Internacional. A banda é conhecida pelo seu som etéreo e pelo falsete do vocalista, Jónsi. Alguns de seus contempôrâneos são Múm e Amiina, ambas surgidas da mesma cena criativa e vibrante do post rock da Islândia.)

História
Jón Þór (Jónsi) Birgisson, Georg Hólm e Ágúst Ævar Gunnarsson formaram a banda em Reykjavík em agosto de 1994. O nome da banda é o nome da irmã de Jónsi, Sigurrós, que nasceu no mesmo dia em que a banda foi fundada. Logo ganharam um acordo para gravar em um selo local, o Bad Taste. Em 1997, lançaram o primeiro CD, Von (esperança), e em 1998, uma coletânea remixada, chamada de Von brigði. O nome é, na verdade, uma brincadeira com as palavras em islandês: Vonbrigði é traduzida por "decepção", enquanto Von brigði significa "alteração na esperança" (o álbum é também conhecido por um nome alternativo, Recycle Bin).


O baixista, Georg Hólm
O reconhecimento internacional veio com o Ágætis byrjun (Um Bom Começo), de 1999, no qual se juntou à banda Kjartan Sveinsson. A boa reputação do disco foi se espalhando pelo mundo nos dois anos seguintes. A crítica aclamou-o como um dos melhores álbuns de todos os tempos, comparando a banda com gigantes da música, como o Radiohead. Três músicas, Ágætis Byrjun, a música-título, o primeiro single, Svefn-g-englar e a então inédita Njósnavélinsem (que se tornaria sem título n°4) foram trilha do filme Vanilla Sky, de Cameron Crowe. Suas músicas também apareceram na série 24 Horas e no filme The Life Aquatic with Steve Zissou, e ainda em um filme da BBC, The Girl in the Café, onde se ouve Starálfur.
Após o lançamento de Ágætis byrjun, a banda ficou mais conhecida pela maneira singular com que Birgisson toca sua guitarra: com um arco de violoncelo, acentuado por um reverb, criando um efeito flutuante, único.
O baterista Ágúst deixou a banda após a gravação de Ágætis byrjun, e foi substituído por Orri Páll Dýrason. Em 2002, o antecipado álbum ( ) foi lançado. Nenhuma das músicas tinha título, embora a banda batizasse-as depois, em seu website. Todas as canções do álbum foram escritas em vonlenska (algo como esperancês), uma língua inventada por Jónsi, foneticamente parecida com o islandês. Supôs-se que o ouvinte é quem deveria criar um significado particular das letras, e escrevê-lo nas páginas em branco do encarte do disco.


Em outubro de 2003, Sigur Rós se juntou ao Radiohead para compor a trilha da espetáculo Split Sides, de Merce Cunningham. As três músicas do Sigur Rós foram reunidas no EP chamado Ba Ba Ti Ki Di Do, e lançadas em março de 2004. O disco de estréia da banda, Von (1997), foi finalmente lançado nos EUA e no Reino Unido, em outubro de 2004.
O último álbum, Takk..., é lançado em 13 de setembro de 2005, e apresenta canções com um estilo intermediário entre o primeiro e segundo discos. A banda dispôs, em seu site, o download de Glósóli, no dia 15 de agosto. Hoppípolla, o segundo single oficial, foi lançado em 28 de novembro, junto com um remake de Hafsól, canção do Von. Hoppípolla foi amplamente usada pela BBC, tanto em alguns de seus programas (propaganda da série Planet Earth: Planeta Terra), quanto na cobertura dos jogos da seleção inglesa de futebol, durante a Copa do Mundo de 2006. Também apareceu no trailer do filme Children of Men. Conseqüentemente, a demanda pelo single cresceu, e a EMI fez aumentar a produção.
Um novo EP, Sæglópur, foi lançado em 10 de julho de 2006, em alguns países, e em 8 de agosto nos Estados Unidos. A previsão de lançamento do EP era 8 de maio, mas com o repentino sucesso de Hoppípolla, foi adiado. O compacto contava com três novas canções: Refur, Ó Fridur e Kafan.
Em julho de 2006, Sigur Rós terminou uma turnê mundial que passou pela Europa, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong e Japão, e seguiu fazendo shows pela Islândia em julho, gravando-os para um futuro DVD.
Em 2008, a banda lançou Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust. Foi o 5º álbum de estúdio, e o primeiro a trazer uma letra em inglês, “All Alright”. O trabalho não é tão obscuro e ambiente quanto os anteriores, dando lugar a melodias mais alegres e determinadas influências do folk. Foi o terceiro disco a contar com a participação do quarteto Amiina nas cordas.

Membros da banda

[editar] Actualmente

Ex-integrantes

Discografia

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ef/Crystal_Clear_app_xmag.png/17px-Crystal_Clear_app_xmag.pngVer artigo principal: Discografia de Sigur Rós

Vonlenska

Vonlenska é um termo usado para definir a língua ininteligível usada pela banda. Em Inglês, Vonlenska é chamado Hopelendic). Diferente de outras línguas construídas, que podem ser usadas para comunicação, Vonlenska serve somente para dar ritmo e melodia às músicas, sem uma gramática específica.

Letras em Vonlenska

Do Álbum Von:
  • "Von"
Do Álbum Ágætis byrjun:
  • "Olsen Olsen"
  • "Ágætis byrjun" (final)
Do Álbum ( ):
  • Todas as músicas com vocais são em Vonlenska
Do ÁlbumTakk...:
  • "Hoppípolla" (Seguindo a linha "En ég stend alltaf upp")
  • "Sé lest"
  • "Sæglópur"
  • "Mílanó"
  • "Gong"
  • "Andvari"
Do Álbum Hvarf:
  • "Salka"
  • "Hljómalind"
  • "Í Gær"
  • "Von"
  • "Hafsól" (Da metade até o final)
Do Álbum Heim:
  • "Vaka"
  • "Ágætis byrjun"
  • "Von"
Do Álbum Með suð í eyrum við spilum endalaust:
  • "Festival"
  • "Ára bátur"
  • "Fljótavik" (final)
  • "All Alright" (final)
Outros:
  • "Fönklagið"
  • "Gítardjamm"
  • "Nýja lagið"
  • "Heima" [DVD Version]

Trilhas sonoras

Outros trabalhos

  • Hrafnagaldur Óðins (2002) - Coletânea de músicas compostas em torno do poema islandês Hrafnagaldr Óðins por Hilmar Örn Hilmarsson, Steindór Andersen e Sigur Rós.

Videografia

 Videoclipes

  • Svefn-G-Englar (junho de 2000)
  • Viðrar Vel Til Loftárása (setembro de 2001)
  • sem título n°1 (também conhecido como Vaka) (fevereiro de 2003)
  • Glósóli (setembro de 2005)
  • Hoppípolla (novembro de 2005)
  • Saeglopur (julho de 2006)
  • Gobbledigook
    • Vídeos disponíveis para download no site oficial

DVD / Vídeo

Ligações externas









Heima (Tradução)

Um milenio em palavras
Mil palavras, que me enterram à morte
Sem entranhas, continuamos nos ferindo
Eu preciso sair

Um milenio em palavras
Mil palavras, que me contam toda a historia
Ninguem vê, atraves de palavras vazias
Há sempre alguma coisa

A ultima lagrima cai
Eu a seco
Os ultimos anos de uma vida

Os ultimos anos vividos
O ultimo rio segue seu curso
As feridas - sim, elas se curam

Mil palavras na morte
Um milenio, lagrimas correm em nossas bochechas
Feridas, que juntos curamos
A então nos movemos

A ultima lagrima cai
Eu a seco
Os ultimos anos de uma vida

As ultimas palhas sao puxadas
O ultimo rio segue seu curso
As feridas - sim, elas se curam

As feridas, elas se curam
A ultima lagrima cai
As feridas - sim, elas se curam
Sim, elas se curam
Sim, elas se curam
Agora estou finalmente em casa

Vaka (Tradução)

você suspira baixo esta noite
está tão só...
voce está tão...
você suspira baixo esta noite
está tão só...
voce está tão...
voce está tão fraco
está tão só
você suspira baixo
você suspira baixo
está tão
está tão...
você suspira baixo esta noite
está tão só...
voce está tão...
voce suspira um pouco e luta
você está tão perdido...
está tão...
você luta tão fraco
está tão só
voce suspira pouco...
seus suspiros são fracos
você está tão...


domingo, 5 de junho de 2011

O inexistente existe?

 Minha alma pesa em cima desta inconfortável cama
Espero deitada por algo que não existe.
Inexistente em meu pensamento existente em algum lugar de mim
Belos momentos no escuro da noite
 Terríveis clarões do dia
 Torturante espera do tempo que cura
Arrancar momentos vividos de mim
E viver novamente momentos vividos do mundo
Deixar de ser escrava deste existente
E ser livre para o inexistente 
                                                                              Cris Perera

sábado, 4 de junho de 2011

Uma temporada no inferno

                                                                                                      Arthur Rimbaud                                                       


Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos oscorações, onde corriam todos os vinhos.Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos.  E encontrei-a amarga.  E insultei-a.Levantei-me em armas contra a justiça.Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!Consegui extirpar de meu espírito toda esperança humana. Pulei sobre toda alegria,para estrangulá-la, com o salto silencioso da fera.Chamei os carrascos para, ao morrer, morder a coronha de seus fuzis. Chamei osflagelos para afogar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu deus. Chafurdeina lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.Recentemente, quando me encontrava nas últimas, pensei procurar a chave doantigo festim, onde talvez eu recobraria o apetite.A caridade é a chave. Esta inspiração prova que eu sonhava!“Continuarás sendo hiena, etc...”, exclama o demônio que me coroou com tãoamáveis papoulas. “Recebe a morte com todos seus apetites, e teu egoísmo e todosos pecados capitais”.Ah! foi o que fiz, e em excesso:  Mas, caro Satã, eu te conjuro; um olhar menosirritado! e, na espera de algumas pequenas infâmias em atraso, para ti que preferesno escritor a ausência de faculdades descritivas ou instrutivas, eu destaco algumasfolhas horrendas de meu caderno de condenado.
Sangue Ruim
De meus antepassados gauleses tenho o olho azul e branco, e a falta de jeito naluta. Julgo minhas vestes tão bárbaras quanto as suas. Mas não unto meus cabelos.Os gauleses eram os esfoladores de animais, os queimadores de ervas maisincapazes de seu tempo.Deles, herdei: a idolatria e o amor ao sacrilégio;  todos os vícios, cólera, luxúria magnífica, a luxúria  e sobretudo a mentira e a preguiça.Tenho horror a todos os ofícios. Patrões e operários, todos campônios, ignóbeis. Amão que escreve é a mesma que lavra.  Que século de mãos!  Jamais terei mão.Além do mais, a domesticidade leva muito longe. A honestidade dos mendigos meexaspera. Os criminosos me repugnam como os castrados: quanto a mim, estouintacto, e isso pouco me importa.Mas quem fez minha língua assim pérfida, a ponto de fazê-la guiar e proteger minhapreguiça? Sem servir-me nem mesmo do meu corpo para viver, e mais ocioso que osapo, vivi em todas as partes. Não há uma só família da Europa que eu nãoconheça.  Quer dizer, famílias como a minha, que tudo devem à Declaração dosDireitos do Homem.  Conheci cada filho de família!Tivesse eu antecedentes num ponto qualquer da história da França!


Mas não, nada.É para mim evidente que sempre fui raça inferior. Não posso compreender arevolta. Minha raça não se sublevou nunca senão para pilhar: como os lobos aoanimal que não mataram.Evoco a história da França, filha mais velha da Igreja. Vilão, teria feito a viagem àterra santa; tenho na memória caminhos das planícies suávias, paisagens deBizâncio, muralhas de Solima; o culto de Maria, a ternura pelo crucificadodespertando em mim em meio a mil magias profanas.  Sentei-me, leproso, sobreos vasos quebrados e urtigas, ao pé de um muro carcomido pelo sol.  Mais tarde,cavaleiro, teria dormido sob as noites de Alemanha.E mais ainda: danço o sabá numa clareira rubra, com velhas e crianças.Nada recordo além desta terra e do cristianismo. Jamais findaria de rever-me nessepassado. Mas sempre só; sem família; além do mais, que língua falaria? Jamais mevejo nos conselhos do Cristo; tampouco nos conselhos dos Senhores, representantes do Cristo.Embora houvesse estado no século anterior: só hoje torno a encontrar-me. Nãomais vagabundos, nem guerras incertas. A raça inferior cobriu tudo  o povo, comose diz, a razão, a nação e a ciência.A ciência! Tudo foi recomeçado. Para o corpo e a alma,  o viático,  têm-se amedicina e a filosofia,  os remédios das comadres e as canções popularesarranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia,cosmografia, mecânica, química!...A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo marcha! Porque não haveria degirar?É a visão dos números. Dirigimo-nos ao Espírito. É certo, é oráculo, o que digo. Eucompreendo, e não sabendo explicar-me sem palavras pagãs, preferiria calar-me.O sangue pagão retorna! O Espírito está perto, porque Cristo não me ajuda, dando àminha alma nobreza e liberdade? Enfim! o Evangelho passou! O Evangelho! OEvangelho.Espero Deus com gula. Sou de uma raça inferior desde toda eternidade.Eis-me aqui, sobre a praia armoricana. Que as cidades se iluminem à noite. Minhajornada findou: deixo a Europa. O ar marinho queimará meus pulmões; os climasperdidos me curtirão. Nadar, mastigar a erva, caçar, e sobretudo fumar; beberlicores fortes como metal fundente,  como faziam os ancestrais em torno ao fogo.Voltarei, com membros de ferro, pele escura, olhar selvagem: por minha máscara.Me julgarão de raça forte. Terei ouro; serei ocioso e brutal. As mulheres cuidamdesses enfermos ferozes que voltam dos países quentes. Me envolverei nosassuntos políticos. Serei salvo.Agora sou maldito, tenho horror à pátria. O melhor é dormir, completamentebêbado, na praia.Não nos vamos.  Retomemos estes caminhos, carregando meu vício, o vício quedeitou suas raízes de sofrimento a meu lado, desde a idade da razão  que sobe aocéu, me golpeia, me derruba, me arrasta.A última inocência e a última timidez. Está dito. Não transmitir ao mundo meus



Mas não, nada.É para mim evidente que sempre fui raça inferior. Não posso compreender arevolta. Minha raça não se sublevou nunca senão para pilhar: como os lobos aoanimal que não mataram.Evoco a história da França, filha mais velha da Igreja. Vilão, teria feito a viagem àterra santa; tenho na memória caminhos das planícies suávias, paisagens deBizâncio, muralhas de Solima; o culto de Maria, a ternura pelo crucificadodespertando em mim em meio a mil magias profanas.  Sentei-me, leproso, sobreos vasos quebrados e urtigas, ao pé de um muro carcomido pelo sol.  Mais tarde,cavaleiro, teria dormido sob as noites de Alemanha.E mais ainda: danço o sabá numa clareira rubra, com velhas e crianças.Nada recordo além desta terra e do cristianismo. Jamais findaria de rever-me nessepassado. Mas sempre só; sem família; além do mais, que língua falaria? Jamais mevejo nos conselhos do Cristo; tampouco nos conselhos dos Senhores, representantes do Cristo.Embora houvesse estado no século anterior: só hoje torno a encontrar-me. Nãomais vagabundos, nem guerras incertas. A raça inferior cobriu tudo  o povo, comose diz, a razão, a nação e a ciência.A ciência! Tudo foi recomeçado. Para o corpo e a alma,  o viático,  têm-se amedicina e a filosofia,  os remédios das comadres e as canções popularesarranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia,cosmografia, mecânica, química!...A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo marcha! Porque não haveria degirar?É a visão dos números. Dirigimo-nos ao Espírito. É certo, é oráculo, o que digo. Eucompreendo, e não sabendo explicar-me sem palavras pagãs, preferiria calar-me.O sangue pagão retorna! O Espírito está perto, porque Cristo não me ajuda, dando àminha alma nobreza e liberdade? Enfim! o Evangelho passou! O Evangelho! OEvangelho.Espero Deus com gula. Sou de uma raça inferior desde toda eternidade.Eis-me aqui, sobre a praia armoricana. Que as cidades se iluminem à noite. Minhajornada findou: deixo a Europa. O ar marinho queimará meus pulmões; os climasperdidos me curtirão. Nadar, mastigar a erva, caçar, e sobretudo fumar; beberlicores fortes como metal fundente,  como faziam os ancestrais em torno ao fogo.Voltarei, com membros de ferro, pele escura, olhar selvagem: por minha máscara.Me julgarão de raça forte. Terei ouro; serei ocioso e brutal. As mulheres cuidamdesses enfermos ferozes que voltam dos países quentes. Me envolverei nosassuntos políticos. Serei salvo.Agora sou maldito, tenho horror à pátria. O melhor é dormir, completamentebêbado, na praia.Não nos vamos.  Retomemos estes caminhos, carregando meu vício, o vício quedeitou suas raízes de sofrimento a meu lado, desde a idade da razão  que sobe aocéu, me golpeia, me derruba, me arrasta.A última inocência e a última timidez. Está dito. Não transmitir ao mundo meus


trabalhar.Recebi no coração o golpe de misericórdia. Não o tinha previsto!Jamais pratiquei o mal. Os dias me serão leves, o arrependimento me será poupado.Não terei tido os tormentos da alma quase morta para o bem, na qual ascende aluminosidade severa como a dos círios fúnebres. O destino do filho de família,esquife prematuro coberto de límpidas lágrimas. Sem duvida, a devassidão éestúpida, o vício é idiota; é preciso jogar fora a podridão. Mas o relógio não teráchegado a tocar senão a hora da dor pura! Serei suspenso como uma criança, parabrincar no paraíso, esquecido de todas as desgraças!Depressa! existem outras vidas?  O sono entre riquezas é impossível. Só o amordivino outorga as chaves da ciência. Vejo que a natureza não passa de umespetáculo de bondade. Adeus quimeras, idéias, erros.O canto judicioso dos anjos se eleva do navio salvador: é o amor divino.  Doisamores! Posso morrer do amor terrestre, morrer de devoção. Deixei almas cujosofrimento aumentará com minha partida! Vós me escolhestes entre os náufragos,não são meus amigos os que ficam?Salvai-os!Nasceu-me a razão. O mundo é bom. Abençoarei a vida. Amarei meus irmãos. Nãosão mais promessas infantis. Nem a esperança de escapar à velhice e à morte.Deus faz minha força e eu louvo Deus.O tédio não mais é meu amor. Os ódios, a devassidão, a loucura, dos quais conheçotodos os ímpetos e desastres,  todo meu fardo foi arriado. Apreciemos semvertigens a extensão da minha inocência.Eu não seria mais capaz de pedir a consolação de uma paulada. Não creio terembarcado em núpcias, com Jesus Cristo por sogro.Não sou prisioneiro de minha razão. Disse: Deus. Vejo a liberdade na salvação:como consegui-la? Os gostos frívolos me abandonaram. Não mais necessidade dedevoção nem de amor divino. Não deploro o século dos corações sensíveis. A cadaum sua razão, desprezo e caridade: ocupo meu lugar no cume desta angélica escalade bom senso.Quanto à felicidade instituída, doméstica ou não...não, não posso. Sou muitodissipado, frágil em excesso. A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: quanto amim, minha vida me pesa, levanta vôo e flutua longe, acima da ação, esse preciosocentro do mundo.Que solteirona estou me tornando, perdendo a coragem de amar a morte!Se Deus me concedesse a calma celestial, aérea, a oração,  como os antigossantos.  Os santos! esses fortes! os anacoretas, artistas de uma espécie jáextinta!Farsa contínua! Minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa que todos devemrepresentar.Basta! eis a punição.  Em marcha!Os pulmões queimam, as têmporas latejam! A noite roda em meus olhos, atravésdeste sol! O coração...os membros...



Tive razão em desprezar essa gente simples que não perderiam a ocasião de umacarícia, parasitas da limpeza e da saúde de nossas mulheres, hoje que elas tãopouco concordam conosco.Tive razão em todos meus desdéns: pois estou me evadindo!Eu me evado!Eu me explico.Ontem ainda eu suspirava: “Céu! Somos em excesso os condenados aqui em baixo!Quanto a mim, já vivo há tanto tempo entre eles! Conheço-os a todos. Nós nosreconhecemos sempre; nos detestamos. A caridade nos é desconhecida. No entantosomos polidos: nossas relações com o mundo são muito corretas! Não é espantoso?O mundo! os mercadores, os ingênuos!  Não somos desonrados.  Mas como nosreceberiam os eleitos? No entanto há pessoas mal-humoradas e alegres, falsoseleitos, precisamos pois de audácia ou humildade para abordá-los. São os únicoseleitos. Não são os que abençoam!Tenho recobrado dois vinténs de razão  isto passa rápido!  vejo que minhasangustias decorrem de não ter me apercebido suficientemente cedo de queestamos no Ocidente. Os pântanos ocidentais! Não que eu julgue a luz alterada, aforma extenuada, o movimento desviado...Bem! eis que meu espírito quer assumirabsolutamente todos os desenvolvimentos cruéis que sofreu o espírito desde o fimdo Oriente...Isto quer meu espírito!...Meus dois vinténs de razão de acabaram! O espírito é autoridade, quer que euesteja no Ocidente. Seria preciso calá-lo para concluir como eu desejaria.Eu mandava ao diabo as palmas dos mártires, os esplendores da arte, o orgulho dosinventores, o ardor dos saqueadores; eu retornava ao Oriente e à sabedoriaprimeira e eterna. Parece que é um sonho de indolência grosseira!No entanto, de modo algum eu pensava no prazer de escapar aos sofrimentosmodernos. Não tinha em vista a sabedoria bastarda do Corão.  Mas não há umsuplício real no fato de que, desde esta declaração de ciência, o cristianismo, ohomem se jogue, prove a si mesmo as evidencias, se encha de prazer de repetiressas provas, e não viva senão assim? Tortura sutil, tola; fonte de minhasdivagações espirituais. A natureza poderia entediar-se, talvez. O senhorPrudhomme nasceu com o Cristo.Não é porque cultivamos a bruma! Devoramos a febre com nossos legumesaquosos. E a embriaguez! e o tabaco! e a ignorância! e as devoções!  Estará tudoisso suficientemente longe do pensamento da sabedoria do Oriente, a pátriaprimitiva? Porque um mundo moderno, se tais venenos são inventados!Os homens de Igreja dirão: Compreendemos. Mas quereis falar do Éden. Nada hápara vós na historia dos povos orientais.  De fato; era no Éden que eu pensava!Quanto significa para meu sonho esta pureza das raças antigas!Os filósofos: O mundo não tem idade. A humanidade se desloca, simplesmente.Estais no Ocidente, mas livres de habitar em vosso Oriente, tão antigo quantoqueirais que o seja,  e de mele morar confortavelmente. Não sejais um vencido.Filósofos, sois de vosso Ocidente.Tem cuidado, meu espírito. Nada de determinações violentas para a salvação.Exercita-te!  Ah! a ciência não avança som suficiente rapidez para nós!

Mas me apercebo de que meu espírito dorme.Estivesse sempre desperto a partir deste momento, cedo chegaríamos à verdade,que talvez nos rodeia com seus anjos chorosos!... Estivesse desperto até estemomento, eu não teria cedido aos instintos deletérios, em uma época imemorial!... Se tivesse se mantido sempre desperto, eu vogaria em plena sabedoria!...Ó pureza! pureza!Foi este minuto de lucidez o que me deu a visão da pureza!  Pelo espírito vai-se aDeus!Dilacerante infortúnio!
O relâmpago
O trabalho humano! é a explosão que ilumina, de vez em quando, meu abismo.“Nada é vaidade; rumo à ciência, e adiante! Clama o Eclesiastes moderno, isto é,Todo o Mundo. E no entanto os cadáveres dos maus e ociosos caem sobre ocoração dos outros...Ah...rápido; lá em baixo, alem da noite, estas recompensasfuturas, eternas...escaparemos delas?...Que posso eu? Conheço o trabalho; e a ciência é muito lenta. Que a prece galope eque ruja a luz...bem a vejo. É muito simples, e faz muito calor; prescindirão de mim.Tenho meu dever, como muitos serei dele orgulhoso, deixando-o de lado.Minha vida está gasta. Vamos! finjamos, vadiemos, ó piedade! E existiremosdivertindo-nos, sonhando amores monstros e universos fantásticos, lamuriando-nose censurando as aparências do mundo, saltimbanco, mendigo, artista, bandido, sacerdote! Em minha cama de hospital, o odor do incenso volta a mim poderoso;guardião dos aromas sagrados, confessor, mártir...Reconheço ali a sórdida educação de minha infância. Depois, que!...Andar meusvinte anos, se os outros andam vinte anos...Não! Não! agora me revolto contra a morte! O trabalho parece excessivamente levea meu orgulho: seria um suplício muito breve minha traição ao mundo. No últimoinstante, eu atacaria à direita, à esquerda...Então,  oh! pobre alma querida, a eternidade estaria perdida para nós!
Manhã
Não tive eu uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, digna de ser escritaem folhas de ouro,  sorte excessiva! Por que crime, por que erro, mereci minhaatual fraqueza? Vós que pretendeis que os animais soluçam de tristeza, que osdoentes desesperam, que os mortos têm pesadelos, tratai de narrar minha queda emeu sono. Quanto a mim, não posso explicar-me mais que o mendigo com seuscontínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!Hoje, no entanto, creio ter acabado o relato de meu inferno. Era realmente oinferno; o antigo, cujas portas o filho do homem abriu.No mesmo deserto, na mesma noite, sempre meus olhos cansados despertam coma estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos,

o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, alem das praias e montes, saudar onascimento do novo trabalho, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios,o fim da superstição, adorar,  os primeiros!  o Natal sobre a terra?O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.
Adeus
Já é outono!  Ma porque deplorar um sol eterno, se estamos empenhados nadescoberta da claridade divina,  longe das gentes que morrem ao correr dasestações.O outono. Nossa barca erguida nas brumas imóveis ruma ao porto da miséria, acidade enorme sob o céu manchado de fogo e barro. Ah! os andrajos podres, o pãoensopado na chuva, a embriaguez, os mil amores que me crucificaram! Nuncadeixará de existir essa vampiro rainha de milhões de almas e corpos mortos e queserão julgados! Revejo-me, apele roída pela lama e peste, os cabelos e as axilascheios de vermes, e vermes ainda maiores no coração, estendido entre osdesconhecidos sem idade, sem sentimento...Eu poderia assim morrer...Horrorosaevocação! Execro a miséria.E temo o inverno porque é a estação do conforto! Vejo às vezes no céu praias infinitas cobertas de brancas nações em festa. Umagrande nau de ouro, acima de mim, agita seus pavilhões multicolores sob as brisasda manha. Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Tentei inventarnovas flores, novos astros, novas carnes, novas línguas. Acreditei adquirir poderessobrenaturais. Muito bem! Devo sepultar minha imaginação e minhas lembranças.Uma linda glória de artista e de narrador perdida!Eu! Eu que me chamei mago ou anjo, dispensado de toda moral, voltei ao chão,com um dever a buscar, e obrigado a áspera realidade abraçar! Campônio!Engano-me? seria a caridade, para mim, irmã da morte?Enfim, pedirei perdão por ter-me nutrido de mentira? E sigamos.Mas nenhuma mão amiga! e onde encontrar o socorro?Sim, a nova hora é pelo menos muito severa.Pois posso dizer que a vitória me foi dada: o ranger de dentes, o sibilar do fogo, ossuspiros pestilentos se atenuam. Todas as lembranças imundas se apagam. Minhasúltimas queixas se esfumam,  inveja dos mendigos, dos salteadores, dos amigosda morte, dos párias de toda espécie.  Malditos, se eu me vingasse!É necessário ser absolutamente moderno.Nada de cânticos: manter o terreno conquistado. Dura noite! O sangue ressequidofumega em meu rosto, e nada tenho atrás de mim a não ser este horrívelarbusto!...O combate espiritual é tão brutal quanto a batalha dos homens; mas avisão da justiça é o prazer só de Deus.É a vigília, entretanto. Recebamos todos os influxos de real vigor e ternura. E, aoromper da aurora, armados de ardente paciência, entraremos nas cidadesesplêndidas.

Que falava eu de mão amiga? É uma bela vantagem poder rir-me dos velhosamores ilusórios, e cobrir de vergonhas esses casais mentirosos  vi o inferno dasmulheres lá em baixo;  e me será permitido possuir a verdade em uma alma e um corpo.
Abril-agosto, 1873 
Vermelho como céu
A eterna forma doce do cinema italiano nos trás
A bela historia de superação de um menino apaixonado pelo cinema
 Surpreende-nos com seu simples e criativo jeito.
Incomodado com seu novo mundo descobre um gravador velho
E faz um novo jeito de viver o cinema

 
Vermelho como o Céu inicia com cenas da vida cotidiana do Mirco (protagonista do filme) que morava com seus pais em uma vila da Toscana. Ele costumava brincar com seus amigos e, sempre que podia, seu pai o levava para o cinema criando assim não só o hábito como o encantamento do menino por este tipo de arte. Para ressaltar a importância da família e do contexto social na formação do indivíduo e na compreensão de suas ações, destacamos o seguinte:
"Indivíduo e sociedade são inseparáveis, segundo a dialética, pois o particular contem, em si o universal;deste modo, se desejamos conhecer cientificamente o ser humano, é necessário considera-lo dentro do contexto histórico, inserido em um processo constante de subjetivação/objetivação." (LANE, 1998, p. 15)
Para aprofundar a discussão trazemos a posição de Borsoi (2004, p.22) quando cita Marx para enfatizar o fato do indivíduo ser o produto da interação social: "Aqui Marx deixa claro que o indivíduo é o ser social porque não é antítese da sociedade, pelo contrário, o indivíduo é o produto da vida dos seres humanos em sociedade".
O enredo do filme começa a tomar sentido a partir de um acidente que ocorre ao Mirco quando ele, por curiosidade, brincava com uma espingarda antiga e, ao ouvir a voz do pai, se assusta deixando a arma cair causando disparo acidental que acaba por lhe atingir na cabeça, lesionando os seus olhos.
Após vários exames o médico explica aos pais que a criança necessita de cuidados especiais e, na época as escolas públicas não aceitavam crianças com deficiência visual e o pai de Mirco era de origem pobre, o que levou o médico a recomendar o Instituto Cassoni, um colégio interno, religioso e tradicional (com mais de 100 anos).
Sem mais alternativas os pais levaram Mirco para o Instituto e lá foram recebidos pelo diretor, padre Achille, que explicou que o instituto era referência em lidar com cegos e assim a criança teria a oportunidade de aprender o braile e um ofício manual, como empalhar cadeiras, ressaltando que, ficando lá até os 18 anos, aprenderá, com a disciplina, a ser "capaz" de viver em sociedade. Em se pensando na metodologia de ensino da instituição, onde era imposta severa disciplina, e o efeito dessa ação frente a subjetividade, citamos o seguinte:
"Embora essas disciplinas reduzam em muito efetivamente o campo de exercício das subjetividades privadas, impondo padrões e controles muito fortes às condutas, à imaginação, aos sentimentos, aos desejos e àsemoções individuais, faz parte de seu modo de funcionamento dissimular-se, esconder-se, deixando-nos crer que somos cada vez mais livres, profundos e singulares."(FIGUEIREDO & SANTI, 2007, p. 20)
A idéia de que a disciplina nos levaria a crer que somos livres "capazes", não foi absorvida na subjetividade de Mirco que não aceitava a condição de cego, visto que era capaz de enxergar vultos. E a idéia de se moldar às normas daquela instituição não lhe era bem aceita, gerando conflito interior, conforme nos mostra Lane (1998, p. 12):
"Sei que vivo em uma sociedade com normas, suas instituições, mas quem sou eu afinal? Um robô pré-planejado, uma pessoa bem ajustadas às normas vigentes, ou alguém capaz de sentir de pensar e de agir de acordo com a minha consciência?" .
O primeiro amigo que Mirco faz no Instituto é o Felice, cego de nascença, era uma criança que fugia da judiação dos outros meninos mais levados. Em parceria com Mirco pôde questionar sobre como são as cores, e comparando as cores com coisas da natureza, Mirco descrever a cor vermelha comparando com o céu, ao entardecer, o que origina o nome do filme.
Mirco não se adapta facilmente à escola e não está disposto a aprender o braile, o que gera conflitos internos, aguçados pela ausência da família o queFIGUEIREDO & SANTI (2007, p. 20) nos esclarece:
"A perda de referências coletivas, como a religião, a "raça", o "povo", a família (grifo nosso), ou uma lei confiável obriga o homem a construir referências internas. Surge um espaço para a experiência da subjetividade privada: quem sou eu, como sinto, o que desejo, o que considero justo e adequado? Nessa situação o homem descobre que é capaz de tomar suas próprias decisões e que é responsável por elas. A conseqüência desse contexto é o desenvolvimento da reflexão moral e do sentido da tragédia"
Nesse contexto, Mirco em sua revolta, isolado no quarto, acaba encontrando um velho gravador, e esse equipamento lhe abre um leque de possibilidade, frente ao seu isolamento, pois, "é característica do homem a individualização e é isto que estána base da construção de sua individualidade, um processo que, por sinal, só pode ocorrer porque, necessariamente, está atrelado à sociabilidade". (BORSOI, 2004, p. 26). Sendo assim Mirco resolve, com ajuda do Felice, fazer o trabalho sobre a natureza, proposto pelo seu Professor Don Giulio, através de gravações.
Porém, o trabalho não é bem recebido por parte do Diretor que o repreende severamente, acusando-o de roubar o gravador e as fitas da escola para finalidades ilícitas, sem considerar a grande inovação e criatividade do trabalho desenvolvido pela criança. A insensibilidade do diretor, também cego, nos leva a trazer a tona o questionamento de Lane (1998, p. 16): "o que aconteceu com a nossa subjetividade para perdemos a capacidade de sentir amizade, de ter/ser amigo?"
A partir desse momento Mirco passa a contar com o apoio do Professor Don Giulio que, com a sensibilidade de um educador, lhe presenteia com um gravador novo e o incentiva a utilizar outros sentidos e conseqüentemente aprender o braile. Nesse meio tempo Mirco conhece Francesca, uma garota ousada, filha da zeladora da instituição, que em parceria com Mirco vai viver diversas emoções, pois, o que chama a atenção da menina é que ele afirma que ainda consegue enxergar, diferente dos outros garotos que reconheciam sua condição de cegos. E essa aceitação (ou não aceitação) está relacionada às emoções, significados e experiências do indivíduo, como nos mostra González-Rey:
"As emoções tomam formas e relações que não estão definidas de maneira imediata por um significado. Algo que duas pessoas compartilham com um mesmo significado não vai ter um mesmo valor emocional para elas. (...) Esses sentidos por sua vez serão responsáveis pela trajetória de vida diferente dessas pessoas a partir da experiência que enfrentaram". (2004, p. 136)
Sendo assim, Mirco põe em questão seus próprios limites, como quando se submete a andar de bicicleta junto com a Francesca, às escondidas, saindo do instituto por uma passagem secreta. Estabelecendo assim uma relação de amizade e cooperação e "a noção de cooperação implica interação e remete à noção de sociedade, que, por sua vez, não significa antítese em relação ao indivíduo e muito menos pode ser vista como separada da natureza". (BORSOI, 2004, p. 22)
Em uma dessas saídas às escondidas, Mirco e Francesca conhecem Ettore, um estudante cego que participa de protestos políticos e é ex aluno do instituto, essa amizade vai ser mantida e bastante significativa no desfecho do filme. De uma forma geral Mirco passa a interagir mais com os colegas e a se dedicar aos estudos, assim podia manter seus encontros secretos e fazer as gravações que desejava, na interação com os amigos, atitude explicada no trecho seguinte:
"(...) o homem não pode desenvolver suas faculdades humanas na ausência de contato humano e também não pode fazê-lo se não houver condições biológicas para tal. Então, o homem é necessariamente, um ser social, inclusive, porque nasce biologicamente em aberto tanto para construir sua hominização como para construir-se indivíduo. É somente a partir de condições naturais e referências sociais que o animal humano, pode tornar-se Homem". (BORSOI, 2004, p. 32)
Mesmo sofrendo o risco de ser expulso pelo diretor, padre Achille, que acreditava que a criança cega não deveria se iludir devido a sua incapacidade visual, Mirco continua colocando em prática a sua subjetividade através das gravações, em áudio, de sons de diversas coisas. Com uma imaginação fascinante Mirco e Francesca começam a inventar uma história de uma princesa e vários irmãos que eram órfãos. Lane ilustra bem, no trecho abaixo, essa resistência de Mirco:
"Atividade, consciência, afetividade, identidade estão em processo de consolidação – elas podem se cristalizar e teremos um cidadão muito bem comportado, ou ela assumem o desafio de se reinventarem a partir de metamorfose da própria identidade, como propõe Ciampa (1987) " (LANE, 1998, p. 15)
As sensações trazidas pelos sons que Mirco conseguia captar acabaram envolvendo vários outros meninos que, sempre em sigilo, se reuniam para dar sentido e voz a história que estavam criando, sentido este explicado no seguinte:
"O sentido subjetivo é a integração de uma emocionalidade de origens diversas que se integra a formas simbólicas na delimitação de um espaço da experiência do sujeito. (...) As emoções associadas à condição de vida do sujeito se integram em sua produção de sentido". (GONZÁLEZ-REY, 2004, p. 127)
Em uma das suas saídas às escondidas do instituto, Mirco decide levar os amigos ao cinema. As crianças fazem cotas e inventam uma desculpa para assistirem ao cinema sem a presença dos pais. Ali encontramos uma das mais belas cenas do filme. A sensação vivida pelas crianças que podiam estar no cinema e ouvir seus sons, mesmo sem poder enxergar as cenas, fato este motivado pelas fantásticas experiências que Mirco já havia tido indo ao cinema com seu pai. Fazendo isso eles rompiam com as normas institucionais para viver uma sensação concreta, realimentando os sonhos perdidos dessas crianças. Trazendo o reconhecimento dessas crianças enquanto protagonistas de suas histórias de vida: "podemos dizer que há um sujeito quando há produção de sentido, quando há diferenciação e singularidade. Sem isso, o sujeito fica anulado por determinações objetivas externas". (GONZÁLEZ-REY, 2004, p. 138)
No desfecho do filme, veremos que a vivência dos meninos é descoberta pelo diretor que, como punição, decide expulsar o Mirco. Contudo há a apelação do Professor Don Giulio para que o menino não seja expulso, visto que reconhece a produção da criança como uma forma de expressão e questiona frente ao Diretor, os valores da instituição.
Em contrapartida, Francesa, a menina amiga de Mirco, procura Ettore, militante político que mobiliza toda a cidade e ameaça parar a metalúrgica se o Mirco não fosse readmitido.
Por fim, Mirco é readmitido e autorizado a apresentar sua história no espetáculo de final de ano da instituição, para os pais, compartilhando-o com os amigos. Mostrando uma nova forma de encarar a realidade por parte dos pais: "a subjetividade como produção de sentido estimula formas de racionalidade que facilitam assumir e compartilhar as produções de sentido em uma cultura". (REY, 2004, p. 133)
"A subjetividade representa um sistema aberto, que se expressa de forma permanente através da ação, seja a de sujeitos individuais ou a das diferentes instancias e instituições sociais. Portanto, ela se caracteriza por seu caráter processual e em nenhum momento representa um conjunto de entidades estáticas, situadas em uma essência que atua como determinante dos comportamentos do sistema". (REY, 2004, p. 133)
A ação de Mirco e as parcerias que ele foi capaz de estabelecer, em sua interação social, transformaram a tradicional instituição, confirmando o que nos diz Rey:
"Nenhum sistema na história da humanidade foi capaz de neutralizar os sujeitos individuais, por mais que se tenha investido no progresso de sua domesticação. Essa capacidade subversiva da ordem estabelecida é precisamente a que reivindica o valor da subjetividade para uma psicologia crítica e da libertação". (2004, p. 140)
No desfecho do filme o diretor, padre Achille, foi destituído do cargo e tempos depois o governo italiano baixou uma lei que integrou crianças cegas a rede pública de ensino. Mirco Moncacci direcionou sua carreira para a produção musical. Por muito tempo teve seu próprio estudo na cidade Pontedera (Toscana) e, depois, criou em Roma (1999) uma empresa de pós-graduação em som. Hoje é responsável pela edição de som de importantes filmes italianos, e tem planos de formar uma fundação que desenvolva e promova pesquisas no universo sonoro abrangendo o público em geral.
Não dá para terminar a discussão sem levantar tantos elementos que foram importantes para que Mirco pudesse ser protagonista de sua história. A perseverança, a determinação e a ousadia não foram castradas pela sua interação social. Os pais se mostram como fator motivador do desenvolvimento dele. Em uma das cenas iniciais podemos ver a mãe reclamando o fato dele quebrar (desmontar) todos os brinquedos para depois tornar a consertá-los. Apesar de ser uma coisa comum das crianças, essa curiosidade não foi castrada dele e, apesar das reclamações, os pais apoiavam as suas descobertas, o que pode ter facilitado o interesse dele por equipamentos, e o fato dele poder tornar útil um velho gravador. Quando Mirco vence os próprios medos e ousa, ele também fortalece a postura do Professor Don Giulio que, mesmo adepto de novas idéias educacionais, não tinha coragem de enfrentar o diretor. Mas não podemos esquecer o papel fundamental de Ettore que, através da movimentação popular, conseguiu que o Diretor fosse demitido, reiterando a força que a interação social em prol de fatores externos, que não lhe afeta diretamente, podem provocar transformações.
O filme nos leva a repensar nossa prática e os nossos medos de enfrentar os desafios frente às imposições estruturais e sociais, como diria Lane:
A subjetividade é construída na relação dialética entre o indivíduo e a sociedade e suas instituições, ambas utilizam as mediações das emoções, da linguagem, dos grupos a fim de apresentar uma objetividade questionável, responsável por uma subjetividade na qual estes códigos substituem a realidade. Assim, objetividade/subjetividade como unidade dialética é mediada por uma estrutura denominada Subjetividade Social, a qual, através de código afetivos e lingüísticos garantem a manutenção do status quo.Como enfrentar esta cilada?(1998, p. 17)
As reflexões e temáticas que o longa Vermelho como o Céu provocam são muitas. A cena que traz os pais com olhos vedados assistindo o espetáculo nos provoca a ter um olhar diferenciado e, assim como disse o Professor Don Giulio, a usar os outros sentidos e então perdermos o etnocentrismo frente à cultura do outro e as possíveis limitações físicas. O filme nós incita a questionar ate que ponto estamos deixando que as barreiras sociais e estruturais limitem a nossa subjetividade e o nosso poder de transformação. Quantas coisas não concordamos e nos submetemos? Quantas idéias não nos permitimos expor para não provocar a ira ou desconforto de alguém? O apelo fica no sentido de que resgatemos a nossa subjetividade e o poder de ação, dentro da interação social na busca de melhorar o que acreditamos ser possível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORSOI, Izabel Cristina Ferreira. O homem (não) é um ser social: um debate superado? In: SILVA, Maria de F. S. e AQUINO, Cássia A. B. (org).Psicologia Social: Desdobramentos e Aplicações. 1 Ed. São Paulo, Escrituras Editora, 2004.
FIGUEIREDO, Luís Cláudio M & SANTI, Pedro Luiz Ribeiro de. Psicologia uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo, Editora Puc, 2007.
LANE, Silvia T. Mourer. A dialética da subjetividade versus objetividade. In: FURTADO, Odair & REY, Fernando L. Gozález (org). Por uma epistemologia da subjetividade: um debate entre a teoria sócio-histórica e a teoria das representações sociais. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
REY, Fernando Gozález. O Social na Psicologia e a Psicologia no Social. Petrópolis, Editora Vozes, 2004
Filme:
BORTONE, Cristiano. Filme Vermelho como o Céu (Rosso come il Cielo). Produção de Bortone, C. e Mazzocca, D., roteiro de Bortone, C., Zapelli, M. e Sassanelli, P., direção de Bortone, C., DVD, duração 95 minutos, gênero drama, classificação etária 12anos, distribuição nacional: California Filmes, Itália, 2004.




Fonte: http://www.webartigos.com/articles/11293/1/VERMELHO-COMO-O-CEU-SOCIABILIDADE-E-SUBJETIVIDADE----O-INDIVIDUO-TRANSPONDO-OS-LIMITES-SOCIAIS/pagina1.html#ixzz1OMa5Jb8a 
Não sou eu eu juro

um petardo da sétima ARTE. descobrimos esta pérola no canal futura na ultima  sexta feira do dia 27 mês vale apena assistir 


É doce o filme canadense sobre a infância. Ainda que seja triste pensar no sofrimento de uma criança, é bonito ver qualquer obra que brote de dentro do universo infantil. Como espectadores, não conseguiríamos traçar com precisão um perfil psicológico de Léon, por vezes inocente, romântico, outras cruel e traquinas, mas ainda assim, compreendemos bem a natureza dele, sem que seja necessário maiores explicações.
Mesmo com os primorosos planos e com a fotografia de um colorido vivo que denunciam o olhar adulto e o artifício que pede qualquer boa produção, a poesia paira. Simplesmente porque todo o artifício é utilizado para capturar a atmosfera da infância. Léon é uma criança difícil, cheia de sonhos e impulsiva. Ama uma mulher, sua mãe. Amante das artes, ensina o filho a tocar piano e tem enorme cumplicidade pela insatisfação dele com o mundo em que vive. Na primeira cena, Léon está pendurado na árvore de seu quintal pelo pescoço, tenta se enforcar. As tentativas de suidídio são recorrentes ao longo do filme, principalmente após a partida de sua mãe que vai à Grécia em busca de céu azul, poeira e Ulisses, deixando para trás os dois filhos e o marido.
Léa também fora abandonada pelo pai, é vizinha de Léon e sempre o procurava buscando ser sua amiga, sem conseguir sucesso nas aproximações. Até que num dado momento tornam-se cúmplices. Cúmplices na dor e na tristeza, cúmplices no esconderijo do mundo tão insuportável para os dois. Decidem confabular um plano para comprarem passagens para Grécia, antes roubando dinheiro de uma família que viajou.
Nas cenas em que Léon e Léa colocam o plano em ação estão os momentos de maior encantamento do filme… Não há um espectador que passaria ileso pelo belo desenho criado pelo diretor de um primeiro amor. Desde as cenas em que se mostram como pequenos adultos: Léon cheio de artefatos para invasão da casa, arrasta-se no chão, escala o muro e a grade protetora, enquanto Léa caminha facilmente e sobe as escadas; a tentativa frustrada e engraçadíssima de Léon para abrir um pequeno buraco na porta de vidro; a maneira como ajuda Léa quando ela está chorando em uma crise existencial… Até os momentos em que são apenas crianças, puras como imaginamos que todas as crianças deveriam ser.
O romance dos dois sana a ausência e o abandono que ambos sofreram pela figura masculina e feminina de maior importância na vida do ser humano. Tem meandros de conto de fadas, não daqueles adaptados pela Disney, mas daqueles reais, nos quais nem sempre os finais são felizes, ainda que haja muita magia e personagens fantásticos.
Haveria muito mais a dizer, mas para falar o filme, vale falar uma imagem: o lugar que Léon escolhe para seu esconderijo é um círculo descampado em meio a uma densa vegetação. Lá há um guarda-sol amarelo e uma pedra grande. E quando pergunta a Léa onde está o seu, ela responde apontando para o seu coração.